10 de abr. de 2012

Palcos - 2ª Mostra de Artes Cênicas


“Como diriam os chineses: tempos interessantes pedem artes interessantes”. É assim que o dramaturgo, diretor e ensaísta Aimar Labaki introduz Palcos - 2ª Mostra de Artes Cênicas do Centro da Cultura Judaica, da qual é curador convidado. Serão 19 dias de programação que percorrerão as mais diversas linguagens dramáticas e atividades como espetáculos, performances, encontros com atores e diretores, leituras e oficinas. 
 
 
 
 
Segundo Yael Steiner, superintendente geral do Centro da Cultura Judaica, “trabalhamos as artes cênicas desde que abrimos nossas portas em 2003, desenvolvendo atividades regulares e pontuais. Sob a nova presidência de Nilton Serson, reforçamos em 2012 o formato de mostra iniciado em 2011, e a presença das artes cênicas tanto na nossa programação como na cidade, já que, nessa edição, ela se tornou o nosso palco”.
 
Palcos pulveriza a própria noção de espaço cênico, multiplicando-o para diversos ambientes dentro do próprio Centro (cafeteria, biblioteca e auditório), bem como para fora (SESC Pinheiros, ruas do bairro do Bom Retiro, oficina Oswald de Andrade e ensaios no ICIB).
 
Benjamin Seroussi, diretor de programação do Centro da Cultura Judaica diz que a programação de 2012 segue a proposta iniciada no ano passado. Articulada ao redor de grandes exposições e pontuada por mostras e festivais, busca questionar a cultura judaica. “Nessa perspectiva, o mês de abril se consolida para nós como o mês das artes cênicas. A ideia é organizar a programação de um mês inteiro ao redor de três peças, uma a cada semana, para questionar as relações entre a cultura judaica e as artes cênicas”, explica. "Com ajustes, novidades e ampliações, a mostra este ano cresce com o objetivo de incentivar novos modelos, formar novas plateias e fomentar a criação nas artes cênicas e o entendimento da cultura judaica", reforça Benjamin.
 
 Em um curto período de tempo, três peças inéditas serão apresentadas nessa segunda edição, a ser realizada entre os dias 12 e 29 de abril. Temas fundamentais da cultura judaica – identidade, migração, diálogo entre tradição e modernidade, a vivência do sagrado em um mundo laico – são tratados em espaços cênicos com a coragem e a profundidade que caracterizam o teatro, a dança e a performance no Brasil atual. Dentro da programação, está previsto ainda o lançamento do 4º Concurso de Montagem Teatral, com inscrições até 16 de junho.
 
Artistas sem fronteiras como o coreógrafo Nir de Volff, a bailarina Márika Gidali e Eliana Carneiro dançam e debatem se a nacionalidade incide sobre os corpos. A música inspira o compositor Wilson Sukorski, em cenas que nos transportam para o chão de Jerusalém, e a dramaturga Cláudia Schapira, nos leva para um piano-bar onde Cole Porter é teatralmente mixado por um DJ. Figuras históricas como Janusz Korczak e Baruch Espinosa são temas de apresentações e nos fazem refletir sobre temas atuais, enquanto que não atores em cena, como o rabino Rubens Sternschein e seu filho Uriel, remetem-nos a uma arte que reflete temas perenes, como a fé e as relações familiares, na abordagem da diretora argentina Vivi Tellas.
 
OS ESPETÁCULOS
 
 
 Palcos – 2ª Mostra de Artes Cênicas apresenta três espetáculos radicalmente diferentes entre si, tanto no formato quanto na origem. O primeiro, Crianças da Noite, do autor e Gabriel Emanuel, é um dos vencedores do 3º Concurso de Montagem Teatral do Centro da Cultura Judaica, realizado em 2011. Encenada pelo grupo Arte Ciência no Palco, com direção do premiado Marco Antônio Rodrigues, a peça revive um episódio da Shoah (“catástrofe” em hebraico, traduzida de maneira fortuita por “holocausto”, termo bíblico que se refere ao sacrifício, à expiação de pecados por incineração; durante a segunda guerra mundial não houve sacrifício, mas sim catástrofe) e procura transcender um embate moral limítrofe, buscando uma aproximação com nossa própria experiência. Afinal, em que medida estamos imunizados à tragédia presente na nossa vida cotidiana? O espetáculo trata os campos de concentração não como uma exceção, mas como um desdobramento inerente ao mundo moderno, ao mesmo tempo que nos permite uma reflexão sobre as ideias do pedagogo ainda hoje referência Janusz Korczak. No sábado, dia 14/04, o autor Gabriel Emanuel participa de um debate após a sessão da peça.
O segundo destaque da Palcos - 2ª Mostra de Artes Cênicas  é o inédito KIKAR. Concebido e dirigido por Nir de Volff, coreógrafo israelense radicado em Berlin, o espetáculo de dança, produzido em parceria com o Goethe Institut e o SESC-SP, une bailarinos brasileiros a integrantes de sua companhia Total Brutal. KIKAR é fruto da reflexão sobre o diálogo permanente entre culturas. Neste caso, uma troca materializada no corpo de bailarinos e performers com formações e histórias diferentes entre si – e que não se conheciam previamente. Na sala de ensaios, foram levados a se redefinir, expressando corporalmente suas nacionalidades, esperanças e desejos.
 Vivi Tellas, diretora argentina, tem criado, em diversos países, espetáculos num gênero híbrido entre o documentário e o drama, que ela intitula biodrama. A cena é poeticamente construída a partir do depoimento ao vivo de não atores – sua mãe e sua tia, três filósofos, um cineasta e seu médico, dois rabinos. Também inédito no Brasil, O Rabino e seu Filho, produzido especialmente para Palcos, é o terceiro grande espetáculo da programação, e traz em cena o rabino Rubens Sternschein e seu filho Uriel Sternschein. Mais que suas histórias pessoais e questões filosóficas, religiosas e existenciais, a peça é fundamentada na própria relação entre pai e filho, preciosa e única, como todas dessa natureza.
 
PERFORMANCES
 
 
 A programação traz também o risco e a qualidade das performances, que segundo Aimar Labaki são “ato único e irrepetível, no qual a fugacidade do teatro ganha contornos dramáticos”. Isabel Teixeira parte de um texto de Paul Auster para reconstruir pequenas vinhetas do cotidiano – inclusive sua própria conversão ao Judaísmo. Cláudia Schapira traz a força de seu trabalho no Núcleo Bartolomeu de Depoimentos para um cabaret hip-hop sobre um parente distante: Cole Porter. Já Wilson Sukorski toca um Baixo Totém, instrumento que ele mesmo inventou, em diálogo ao vivo com um vídeo que fez nas ruas de Jerusalém, e conta com a performer Ana Montenegro. Eliana Carneiro se inspira em símbolos do Sefer Yetzirah (o Livro da Criação) e apresenta Blima, na qual trabalha corpos como manifestações do divino, corpos alterados, em comunhão, oração, transe e êxtase.
 
ESPECIAIS, ENSAIOS E LEITURA DRAMÁTICA
 
 
 
Entre as atividades especiais, a diretora Cibele Forjaz dirige um ato em homenagem a dois intelectuais fundamentais para nosso teatro: Jacó Guinsburg e Anatol Rosenfeld. Jacó, figura central no ensino e pensamento sobre teatro, é também o responsável pela publicação das obras de Anatol, referência obrigatória. A diretora Cibele Forjaz e os atores Dan Stulbach e Luciano Chirolli trabalham sobre algumas produções artísticas e intelectuais destes dois grandes nomes da cena teatral brasileira.
 
Projetos ainda em vias de acabamento também compõe a programação. O Teatro da Vertigem nos permite vislumbrar fragmentos de sua próxima encenação, a estrear em maio, que utilizará o bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo, como campo de experimentação artística. Poderemos assistir a duas cenas de seu ensaio e debater com o diretor Antônio Araújo e outros integrantes do coletivo. Uma oportunidade única de participar do processo criativo do grupo teatral mais importante da atualidade.
 
Trazer este ensaio aberto é também dialogar com um projeto maior que o Centro da Cultura Judaica tem desenvolvido no bairro do Bom Retiro. Além da exposição realizada em 2011, houve também uma edição inteira da Revista 18 (número 30) dedicada ao bairro. Confira no www.culturajudaica.org.br/revista18.
 
 
Já o ator, produtor e diretor Bruce Gomlevsky dirige a leitura de Nova Jerusalém, um texto de David Ives que trata de um episódio central da vida de Baruch Espinosa, um dos mais importantes filósofos ocidentais, que influenciou, e continua a influenciar, inúmeros pensadores.
 
ENCONTROS
 
 
 
 Os espetáculos e performances se desdobram em encontros. Aimar Labaki explica: “teatro é o mundo em cima do palco. Nele, cabem todos os temas, assuntos e ações. Os debates que acontecerão na Palcos procuram partir dos espetáculos e performances para debater temas mais amplos.”
 
Gabriel Emanuel, autor de Crianças da Noite, conversa com Carlos Palma e Oswaldo Mendes, atores da peça, sobre os diversos temas levantados pelo trabalho: a figura de Janusz Korczak, o paralelo entre os acontecimentos evocados pela peça e o atual momento político.
 
Palcos recebe ainda um dos nomes mais importantes da dança moderna brasileira, a coreógrafa Márika Gidali, que debate com Eliana Coelho, performer de Blima. No encontro, serão levantadas questões como o peso da nacionalidade na formação de um profissional do corpo e como as tradições de um povo dialogam com as danças moderna e contemporânea. Felipe Paros, coordenador do departamento de ação educativa e mediação cultural do Centro da Cultura Judaica, media uma mesa com Ferdinando Martins (TUSP) e a Lara Pinheiro (Balé da Cidade de São Paulo) sobre formação de plateias para teatro e dança.
 
Newton Moreno, dramaturgo e diretor dos mais importantes da cena atual, debate com Vivi Telas, diretora de O Rabino e seu Filho, sobre “O Real e o Palco”. O trabalho de ambos toma como referência uma pesquisa histórica para a criação artística. O questionamento surge justamente neste ponto: com quantas realidades se faz uma poética?
 
ESPAÇOS
 
Palcos - 2ª Mostra de Artes Cênicas não se restringe ao teatro do Centro da Cultura Judaica. Estará também no auditório, biblioteca, saguão e cafeteria da casa, além do teatro do SESC Pinheiros, da Oficina Oswald de Andrade e das ruas do Bom Retiro. “Nossas artes cênicas já não cabem em fórmulas e etiquetas. Mas estão todas aqui no Centro”, finaliza Aimar Labaki.
 
4º CONCURSO DE MONTAGEM TEATRAL DO CENTRO DA CULTURA JUDAICA
 
 
Dentro das atividades de Palcos - 2ª Mostra de Artes Cênicas, o  Centro da Cultura Judaica abre as inscrições para o 4º Concurso de Montagem Teatral. Também coordenado pelo dramaturgo Aimar Labaki, possui como objetivo fomentar e apoiar montagens com temática relacionada direta ou indiretamente à cultura judaica. A premiação é voltada a qualquer tipo de montagem: para o público adulto, juvenil ou infantil, produzida em sala, rua ou espaços alternativos.
Serão selecionados até três projetos que concorrem cada um ao prêmio de R$ 40 mil. Os projetos inscritos serão submetidos a uma comissão julgadora formada por profissionais renomados do segmento.
As inscrições estão abertas até 16 de junho, o resultado será divulgado no site do Centro a partir do dia 23 de julho de 2012. Os interessados devem encaminhar a ficha de inscrição, disponível no site www.culturajudaica.org.br/concurso2012 - que também traz o edital e o regulamento do Concurso – via postal com aviso de recebimento ou pessoalmente, para o Centro da Cultura Judaica, que fica na Rua Oscar Freire, 2.500, 4º andar, Sumaré, São Paulo, SP (CEP: 05409-012) aos cuidados de Comunicação.
Anos anteriores
Em sua quarta edição, o Concurso de Montagens Teatrais consagra-se como um grande incentivador das artes cênicas no Estado de São Paulo. Idealizado e promovido pelo Centro da Cultura Judaica, a premiação foi responsável em 2007 e 2011 por lançar grandes sucessos dos palcos brasileiros como as montagens Quando Nitzsche Chorou, de Irvin Yalon e projeto de Ulisses Cohn, e Réquiem, de Hanoch Levin, bem como Crianças da Noite, de Gabriel Emanuel, que integra a programa da mostra Palcos deste ano.
Espetáculos premiados em outras edições:
2007
- Réquiem
, de Hanoch Levin, projeto de Priscilla Herrerias, direção de Francisco Medeiros
- São Paulo de Piratininsky, de Jacó Guinsburg, projeto de Lívio Tragtenberg, direção de Naum Alves de Souza
- O Anjo da História, inspirado em Walter Benjamin, projeto de Celso Cruz
2011
- Nova Jerusalém, de David Ives, direção de Diana Groó
- Crianças da Noite, de Gabriel Emanuel, direção de Marco Antônio Rodrigues
- Silêncio das Quimeras, texto e direção de Celso Cruz.
 
PARA DETALHES DE CADA ATIVIDADE E PROGRAMAÇÃO COMPLETA ACESSE:
 
SOBRE AIMAR LABAKI
 
Aimar Labaki é dramaturgo, diretor e curador. Foi Curador do Festival Nacional de Teatro de Recife (2003/2006), do Festival de Teatro de São José dos Campos (2003/2004) e  Curador dos Eventos Especiais do 5º Festival Internacional de Artes Cênicas de São Paulo (1995). É autor de mais 20 textos, encenados por diretores como William Pereira, Gianni Ratto e Emílio de Biasi, de José Celso Martinez Corrêa (Publifolha, 2002) e de O Teatro de Aimar Labaki (Publifolha, 2010).

[+] SERVIÇO: PALCOS – 2ª MOSTRA DE ARTES CÊNICAS 
Local: Centro da Cultura Judaica, SESC Pinheiros e Oficina Oswald de Andrade
Data: De 12 a 29 de abril de 2012
Ingresso: Gratuito
Horário: Checar indicação de cada atividade
Classificação: Checar indicação de cada atividade
Endereço: Centro da Cultura Judaica - Rua Oscar Freire, 2.500 (ao lado da estação Sumaré do Metrô)
Programaçao completa disponível no folder disponível na recepção do Centro da Cultura Judaica e no www.culturajudaica.org.br e no programa
Tel.: (11) 3065-4333

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