Apesar da enorme importância histórica, Dom Pedro I (1798-1834) continua sendo um personagem pouco conhecido e os textos sobre sua vida são escassos. Mas, mais do que a vida do primeiro imperador do Brasil, foram as contradições de D. Pedro que fisgaram Javier Moro. “Era um homem sem modos, que aprendeu a ferrar cavalos antes de aprender a ler. Era colérico e brigão. Entretanto, também era democrático. Em uma época de monarcas absolutos, ele acreditava na liberdade e na Constituição”, disse o autor em uma entrevista concedida por ocasião do lançamento de O império é você na Espanha. O livro – que recebeu o Prêmio Planeta 2011, uma das premiações literárias mais importantes da Espanha e do mundo – está sendo lançado em março pela Editora Planeta.
O primeiro contato do escritor espanhol com Dom Pedro I aconteceu no fim dos anos 1980, quando Moro passou uma longa temporada no Brasil levantando informações para seu primeiro livro, Caminhos da liberdade, que reconstrói a história do líder seringueiro Chico Mendes.
Autor de sete livros, Javier Moro não escreve romances históricos, mas “história romanceada”, em suas próprias palavras. Seus relatos resultam de muita pesquisa e apresentam fatos e personagens reais. A pesquisa para O império é você consumiu mais de três anos e o texto final foi revisado por quatro historiadores espanhóis (Manuel Lucena, especialista em História da América no século XIX; Francisco Gómez Bellard; e Christian e Patricia Boyer) e dois brasileiros (Cândido Grangeiro e Sara Souza Gomes, ambos mestres em História pela Unicamp). O escritor coloca a História em cena, dramatizando-a, e, em O império é você, interpreta o mundo da época tal como Dom Pedro I o teria visto.
O monarca viveu um período conturbado, cheio de mudanças, marcado pela crise do absolutismo e do regime colonial, que culminaram com a Independência do Brasil e a adoção da monarquia constitucional como forma de governo. O livro é uma narração da vida de Dom Pedro a partir da infância, passando pelas memórias vagas de Portugal e a chegada ao Brasil em 1808. A escrita é ritmada por fatos históricos como o Dia do Fico, a Proclamação da Independência, a Assembleia Constituinte de 1823, o esmagamento dos movimentos separatistas, a Constituição outorgada de 1824, a Guerra da Cisplatina e as Guerras Liberais – contra seu irmão Dom Miguel, usurpador do trono português.
Paralelamente, Javier Moro descreve em minúcias as relações de Pedro com as mulheres. Suas paixões desenfreadas são narradas com maestria, fornecendo dados que enriquecem o retrato do personagem, capaz de sair incógnito do palácio à noite para viver tórridas aventuras. Da dançarina francesa Noémie Thierry à segunda esposa, Amélie du Beauharnais, passando pela princesa Leopoldina e pela incontornável Domitila de Castro e Canto Melo, a marquesa de Santos, as mulheres do imperador são objeto de belos perfis. Os mais densos são os de Leopoldina e da marquesa de Santos, a amante que ousou se instalar em uma mansão diante do palácio, ignorando o escândalo.
“Metade Dom Juan, metade Dom Quixote”, nas palavras de Javier Moro, o Dom Pedro que apresenta é uma figura que provoca empatia por seu amor pela liberdade, seja na política ou na vida pessoal.
O título do livro veio de uma frase pronunciada por Dom João VI em uma conversa com o filho, quando procurava convencê-lo a abandonar Noémie, seu primeiro amor, para se casar com Leopoldina, por imperiosas razões de Estado: “Pedro, o Império somos nós. Será seu algum dia”.
Trecho
“Para Pedro, a revolução constitucionalista de Portugal não foi mais do que uma confirmação das suas ideias reformistas. Porém, sobre as deliberações da corte e as decisões de seu pai – ou, melhor dizendo, as indecisões – não recebia informação direta. Seguia odiando a escória que rodeava Dom João, homens que utilizavam qualquer pretexto para mantê-lo afastado do centro de decisões. O rei, enfrentando o dilema entre ficar ou voltar, ou mandar seu filho à pátria-mãe, não conseguia decidir-se. Ainda que a sua presença em Lisboa bastasse para aplacar as Cortes e tranquilizar os revolucionários, ele via Pedro como alguém imaturo demais e sujeito a influências perigosas. Por isso hesitava.”
O autor
Javier Moro nasceu em Madri, em 1955. Estudou História e Antropologia na Universidade de Paris. Escreveu Caminhos da liberdade (1992), As montanhas de Buda (1998), Paixão índia (2005) e O sári vermelho (2008) – todos publicados no Brasil pela Planeta –, além de dois livros ainda inéditos no país: El pié de Jaipur (1995) e Era medianoche en Bhopal (2001), este último em parceria com seu tio, Dominique Lapierre.
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