Com uma parceria entre Brasil e Suécia, a Embraer desenvolveu uma aeronave de alerta antecipado que só é produzida por poucos países
Falar sobre as potencialidades ainda não exploradas da Amazônia é quase um clichê. Este gigantesco território de floresta tropical está presente em nove nações latino-americanas, sendo que 60% estão no Brasil. Entre tantos números altos, vale ressaltar as quase 30 mil espécies de plantas ali existentes. São cinco mil diferentes árvores. A título de comparação, em toda a América do Norte, existem apenas 650 espécies catalogadas.
Qual a importância dessa riqueza natural? A potencialidade econômica que pode ser gerada por esta biodiversidade é imensa. Uma parte substancial dos princípios ativos, sejam eles naturais ou sintetizados, é extraída de animais e plantas, o que consolida a Amazônia como uma das maiores fontes naturais para o fornecimento de insumos para este tipo de indústria, como as farmacêuticas que, em 2008, tiveram um faturamento acima dos US$ 380 bilhões de dólares.
Diante de cifras tão altas, o que não se pode perder de vista é que a Amazônia e toda a sua riqueza pertencem aos cidadãos brasileiros, portanto a exploração deveria significar geração de receita para a economia local. Devido às dimensões, torna-se complexo, no entanto, controlar a exploração sustentável, fazendo-se necessário uma constante vigilância.
Na década de 80, visando à proteção da Amazônia, surgiu o Projeto Calha Norte com apoio do Exército, Marinha e Aeronáutica, que tinha por objetivo patrulhar as calhas dos rios Solimões-Amazonas. Para operacionalizar esta vigilância, surgiram os programas SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) com intuito de operar o SIPAM (Sistema de Proteção da Amazônia).
Com a necessidade de aumentar o patrulhamento do espaço aéreo deste território, uma vez que áreas extensas ficavam sem cobertura pelo radar (além de dar suporte ao SIVAM/SIPAM), houve a necessidade de empregar uma aeronave de alerta antecipado (AWACS – Airborne Warning and Control System / Sistema Aéreo de Alerta e Controle), com um imenso radar embarcado no dorso, o que substituía dezenas de radares de terra, reduzindo custos de implantação e manutenção, e aumentando a eficiência do patrulhamento.
Inicialmente, pensou-se que a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) poderia desenvolver este tipo de aeronave, utilizando a plataforma do jato regional ERJ-145. Porém, a maior dificuldade seria encontrar um parceiro que provesse a tecnologia de alerta antecipado, sem restrição, capacitando o Brasil a integrar todo o sistema de comunicação e transmissão de dados.
Por mais de uma vez, os Estados Unidos negaram ao Brasil a transferência de tecnologia para o desenvolvimento da indústria bélica e civil. Segundo o Brigadeiro Engenheiro Venâncio Alvarenga Gomes, o desenvolvimento de um míssil antirradiação, denominado MAR-1, por exemplo, teve diversos embargos na venda de insumos pelos Estados Unidos. Outro exemplo se deu com o míssil para combate aéreo denominado MAA-1. Inicialmente, os sensores infravermelhos, cujo objetivo é detectar um avião inimigo, fornecidos pela empresa norte-americana Judson, mostraram-se, segundo o mesmo Brigadeiro, míopes e estrábicos, pois em vez de enxergar o avião inimigo, viam dois borrões.
Para que problemas semelhantes não ocorressem mais, a Embraer buscou suporte da empresa Sueca Ericsson para fornecer o radar embarcado no ERJ-145. A empresa além de fornecer PS-890 Erieye, que é uma antena plana de última geração, com varredura eletrônica ativa, repassou toda a tecnologia necessária para viabilização do projeto. O radar Erieye consegue detectar aeronaves de diversos portes, com uma tecnologia que permite acompanhar diversos alvos simultaneamente, independente da altura em que estejam, algo impossível para um radar de terra.
Com a transferência da tecnologia, o Brasil deu mais um salto tecnológico. Esta aeronave já foi comercializada sem nenhum tipo de impedimento, pois com a política de neutralidade, a Suécia não impõe regras de vendas aos seus parceiros comerciais. A venda de uma aeronave deste porte equivale a um navio carregado com milhares de toneladas de minério.
A capacidade de produzir e vender tecnologia confere a um país mais independência, com mais diversidade no comércio exterior e mais sustentabilidade na economia. Porém, para avançar é necessário inovar, o que se faz com uma boa base tecnológica, ainda praticamente inexistente no Brasil.
As escolhas de parceiros comerciais e de desenvolvimentos, quando acertadas, permitem ao país dar saltos tecnológicos avançando na capacidade de inovar. O Brasil tem mais uma oportunidade de dar um salto tecnológico, ou não, com a compra dos caças para a FAB (Força Aérea Brasileira). A escolha correta permitirá ao país, não só receber as aeronaves, mas também tecnologia de última geração, que permitirá aprender para inovar e criar novos produtos, sejam para o mercado civil ou militar, capacitando o país a seguir na trilha rumo à transformação em potência econômica mundial.
Sobre Ana Paula Arbache
Doutora em Educação pela PUC/SP também é docente dos cursos de MBA Gestão Empresarial da FGV e BSP, além de ser orientadora e avaliadora dos cursos de pós-graduação Lato Sensu da mesma instituição. Sócia diretora da Arbache Consultoria é responsável pelas ações de Gestão de Pessoas, Cidadania Corporativa, Sustentabilidade Ética, Social e Ambiental. É autora das publicações: O Educador de Pessoas Jovens e Adultas numa perspectiva multicultural crítica e Projetos Sustentáveis: estudos e práticas brasileiras I e II e também ministra palestras nacionais e internacionais a respeito do tema.
www.arbache.com.br e www.arbache.blogspot.com
Sobre Fernando Arbache
Presidente da Arbache Consultoria, Fernando é Doutor em Sistemas de Informação (COPPE/UFRJ), pesquisador em simulação, jogos de negócios e Inteligência de Mercado; responsável pelo desenvolvimento de sistemas de novas tecnologias em CRM, ERP, e-learning e Business Intelligence. Além disso, é autor do livro Logística empresarial, da editora Petrobras, e Gestão de Logística, Distribuição e Trade Marketing, da Editora FGV.
www.arbache.com.br e www.arbache.blogspot.com
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