10 de nov. de 2009

Exposição de Jorge Pedro começa na próxima quinta (11), em Maringá

Certa vez o poeta e jornalista Mário Quintana escreveu: "o mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família". A simbologia trata de um tema muito comentado, discutido e estudado ao longo da história: o tempo. Apesar dessa longa discussão, não se chegou a apenas uma conclusão ou definição sobre o assunto. Para o professor Nailor Marques Jr. "o tempo significa tanta coisa que no final não significa coisa nenhuma".

E foi justamente essa subjetividade do tempo que levou o artista plástico Jorge Pedro a criar uma exposição sobre o tema. Com curadoria de Rafaela Tasca, a exposição "Ad Tempora" será lançada no próximo dia 12 em Maringá. Por meio da técnica da assemblage (junção de vários materiais) Jorge criou 25 obras, a maioria de relógios, que é o objeto máximo de marcação do tempo. "Nessa exposição vou discutir sobre o tempo, ou sobre o relógio, ou sobre os dois, ou sobre nenhum. Essa exposição é apenas o paradoxo que o Jorge abre pra falar sobre o tempo", afirmou o artista.

A idéia surgiu quando o Jorge começou a pensar no seu futuro. "Antigamente pensava daqui a vinte anos farei tal coisa. Hoje quando penso daqui vinte anos, terei 74. Vou fazer o que? Vou morar na praia, pular de pára-quedas? Tem coisa que não dá pra fazer. Não dá pra planejar. E isso começa a incomodar", explicou.

Segundo Jorge, o objetivo é abrir essa discussão e proporcionar que as pessoas parem um pouco o seu tempo para refletir sobre o assunto. "A idéia não é necessariamente fazer o relógio funcionar, mas há os que estão em funcionamento e, inclusive, alguns fora do compasso necessário para marcação da hora. Se for um 'relógio do Jorge Pedro' será entre aspas, pois as obras são apenas uma simbologia do que seria para mim a marcação e a passagem do tempo" esclareceu.


Prólogo, Fuso Estático, Daisansha e Pátio das Esculturas

A exposição "Ad Tempora" foi dividida em um prólogo e três espaços. Ao entrar no espaço expositivo, o visitante é recebido por uma espécie de 'máquina do tempo', o Imersível. A obra tem a intenção de brincar com a inexorabilidade do tempo e a idéia de que as pessoas podem ter domínio sobre isso. "Digo que se a humanidade pudesse voltar, tinha voltado tanto que não ia deixar a Eva comer a maça. Estaríamos todos no paraíso. - Não, Eva, você não sabe o que vai acontecer, come outra coisa. Vai chupar uma mexerica", brincou Jorge Pedro.

O primeiro deles, o "Fuso estático" trará obras que retratam momentos. Todos os relógios serão, como o próprio nome revela, estáticos. Um dos relógios marcará 8h15, retratando o momento que Hiroshima foi destruída pela bomba atômica em 6 de agosto de 1945.

O segundo espaço, o "Daisansha", significa o olhar do Ocidente para Oriente. É uma referência à cultura japonesa, admirada e retratada por Jorge em diversas exposições. Nesse espaço serão expostos 'tempuras de relógios'. Prato típico japonês, o tempura traz esse nome em decorrência da presença dos missionários portugueses no Japão que introduziram a cultura de não comer carne durante a quaresma, que em latim significa "ad tempora quadragesimae". Assim, os japoneses não só criaram um prato para se alimentar durante esse período, como também adaptaram o nome da expressão.

Por fim, no terceiro espaço, o "Pátio das Esculturas", 15 relógios em funcionamento e uma ampulheta incitam aos visitantes ponderaram sobre "seu tempo". "É uma parte da exposição que também contempla uma referência à sonoridade, pois são obras que se apresentam cinéticas, além de sua natureza escutórica. Seja à pilha ou à corda, os relógios marcam as horas, numa ode aos instrumentos de medir o tempo. Nessa ala, uma ampulheta também se faz presente com o escorrer total de seu liquido após 10 minutos.", revela a curadora da exposição, Rafaela Tasca.


Textos

Para aprofundar ainda mais a discussão sobre o tempo, três personalidades de Maringá foram convidados a escrever sobre o tema. Para o professor Nailor Marques Jr. essa missão que lhe foi dada foi ao mesmo tempo como um desafio e uma satisfação. "Quando conheci o Jorge, foi amor à primeira vista. Acho ele um gênio e tenho certeza de que está entre os artistas mais importantes do Brasil".

Quando Nailor foi convidado, apenas sabia o nome e o tema da exposição. O seu texto intitulado "O tempo e a noiva" surgiu de um acontecimento real. "Em uma viagem para São Paulo vi uma noiva em plena Avenida Paulista passeando de bicicleta com amigas gritando que estava feliz e iria ser feliz para sempre. Na hora parei em uma banca, comprei um bloquinho e comecei escrever. Quando cheguei ao hotel o texto estava quase todo pronto", contou.

Nailor concebeu o texto em pílulas segmentadas, pois segundo ele, assim como o trabalho do Jorge Pedro e o próprio tempo são formados por fragmentos que resultam em uma idéia, um algo mais. Um desses recortes retrata exatamente a idéia do tempo medida por um objeto. "Os relógios servem para medir o tempo. quando olhamos para eles sabemos quanto tempo não temos mais. quando olhamos para eles sabemos que é hora de almoçar, de dormir, de comer, de sair para o trabalho. o relógio aprisionou o tempo e o tempo nos fez prisioneiros, logo o mundo deve ser uma grande ampulheta. quando será o dia em que seremos virados para baixo para começar tudo outra vez?".

O segundo texto foi escrito pelo pastor Marcelo Gomes. Em seu texto intitulado "Esse tal..." o pastor define o tempo e sua relação com o mesmo. "Implacável. Não encontro palavra mais apropriada [...] Aos poucos, sem que eu percebesse, ele foi moldando minhas convicções, aparando arestas do meu caráter. Aprendi a respeitá-lo, mesmo sem compreendê-lo", escreveu Gomes.

O último convidado foi o psiquiatra José Arthur Molina. No primeiro texto, "Não há tempo", o psiquiatra relata diversos tipos de tempo, como o da felicidade e da tristeza. "Tempo da felicidade sempre tão efêmero, mesquinho, mas com a compensação da intensidade". No fim o autor dá uma espécie de conselho de como cada um deve usar o seu tempo. "Sejam generosos! "nada é urgente"! A vida deve ser gasta, consumida na experiência aventureira que ela encarna. Afinal, o fim do tempo nos espera na esquina. E não há tempo a perder!", disse.

Já o segundo texto de Molina, "Presentes da vida" retrata momentos que ficaram no tempo e na sua memória. "Pãozinho quente com manteiga Aviação. Cheiro de terra molhada depois de longa estiagem. Um samba de Cartola, daqueles de apertar o coração", são apenas alguns exemplos de fatos que marcaram a vida do autor.


Serviço:
Nome: Ad Tempora
Artista: Jorge Pedro Barbosa Lemes
Data: 12 de novembro a 6 de dezembro de 2009
Local: Sala de Exposições do Teatro Calil Haddad- Av. Dr. Luiz Teixeira Mendes, 2500, Zona 05 - Maringá, PR
Horário: Segunda a sexta-feira das 8h às 18h. Sábado, domingo e feriado das 14h às 18h
Contato para agendar visitas monitoradas: Rivy Plapler- (44) 9912-8412 ou rivyplapler@gmail.com

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