22 de jan de 2017

Maria Montero abre a exposição “Sobrevivência dos Vagalumes” na Sé, em homenagem à cidade de São Paulo





A exposição conta com vídeos, fotografias e uma instalação. Apresenta o cruzamento entre dois universos: por um lado o ofício do artista, o fazer artístico, seus procedimentos e métodos, sua sobrevivência, as brechas da história da arte, as referências teóricas que acompanham o fazer, e, por outro, o centro da cidade de São Paulo, seus moradores, sua pulsão e o comércio ilegal de produtos insólitos.

A videoinstalação apresentada na grande sala da galeria “Não existe ser sem fissura”, foi inspirada no livro “Sobrevivência dos Vaga-lumes”, escrito pelo historiador francês Georges Didi-Huberman, a partir do famoso “Artigo dos Vaga-Lumes” (1975), do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.
Trata-se de uma leitura do último capítulo do livro, denominado “Imagens”, realizada em voz alta pela artista. A leitura foi feita na Praça da Sé, em plena luz do dia, sem autorização e captada em vídeo. A Sé, marco zero da cidade, centro das desigualdades sociais, agrupamento de uma comunidade anônima e palco de acontecimentos performáticos, políticos e religiosos foi escolhida para a ação, que se deu como um lampejo poético, uma prece, sem intervalos, formando um público espontâneo não esperado pela artista. O vídeo é uma homenagem à Sé, que é também o nome da galeria.
Para Huberman, os vagalumes articulam uma metáfora para as diversas formas de resistência da cultura, do pensamento e do corpo diante das luzes ofuscantes do poder da política, da mídia e da mercadoria. Para Maria Montero a Sé é local coligante para uma concentração de vagalumes, povos invisíveis. Ela considera que o artista contemporâneo ainda pode ser essa figura que representa a resistência. O vídeo foi cortado em pedaços (lampejos), reduzido e remontado de forma a criar um novo texto através da edição. 
Huberman oferece ao leitor uma espécie de panfleto onde defende a noção de sobrevivência da experiência e da imagem, traçando conexões entre vários campos de pensamento. O autor insiste na reformulação positiva de uma posição de vagalume resistente, fundada na ideia da sobrevivência da imagem como aparição única, preciosa e resistente ao domínio da cultura espetacular. 
Há outra videoinstalação composta por três projeções denominada “Träume” – “sonhos” em alemão. A artista caminha por diversas cidades de olhos fechados. Esse gesto poético foi filmado por André Sicuro entre 2011 e 2013. Uma proposição despropositada que celebra a ausência de projeto. O material foi revisitado em 2016, em ocasião dessa exposição, e três vídeos independentes foram editados a partir do mesmo material bruto. Exibidos lado a lado as imagens relacionam-se ao acaso, numa experiência visual vertiginosa.
Além das duas videoinstalações a mostra conta com impressões de imagens apropriadas da internet denominadas “Estados de exceção”. Decretada pelas autoridades em momentos de emergência nacional, é por definição uma situação oposta ao Estado de direito. Caracteriza-se pela suspensão de direitos e garantias constitucionais. Uma situação temporária de concentração de poderes que, durante sua vigência, aproxima um Estado sob regime democrático do autoritarismo onde o Poder Executivo pode tomar atitudes que limitem a liberdade dos cidadãos. Esse nome é também título de um livro de Giorgio Agamben, que discute tal situação. Nesse trabalho, porém, a artista propõe uma aproximação estética entre ícones da arte e da guerra, que acredita serem os reais territórios possíveis de exceção. 
A mostra apresenta ainda “Breve estudo sobre o machismo na arte, 2014-2016”, e a edição de fotografias “Ganha pão”, uma provocação sobre a própria condição do artista e seus modos de ganhar a vida.

A Sé prorrogou até o dia 04 de março a visitação para a individual "Tela Preparada", do artista Pedro Victor Brandão, instalada no segundo andar da galeria e que teve sua abertura em novembro de 2016. Com curadoria de Fernando Ticoulat, essa mostra apresenta em sua maioria trabalhos inéditos, cujo ponto de partida é o interesse do artista na crescente influência da tecnologia sobre nossas ações, emoções e formas de organização coletiva.

Sobre a Sé

A Sé abriu suas portas em abril de 2014, no centro histórico de São Paulo. Localizada na primeira rua da cidade, num casarão de 1890 que abrigou o primeiro cartório municipal, o prédio é hoje um hub criativo que abriga dois projetos distintos na área das artes plásticas: A Sé, galeria de arte e o Phosphorus, espaço focado em residências artísticas. A casa abriga ainda um terceiro projeto, a Casa Juisi - acervo de roupas vintage para pesquisa e locação. 
Serviço:
Sobrevivência dos Vagalumes, de Maria MonteroInauguração oficial - 25 de janeiro de 2017, 10h às 18h, primeiro andar 

Endereço: 
Rua Roberto Simonsen 108, Centro Histórico - Sé - São Paulo
Site: www.segaleria.com.br 
Como chegar: Metrô Sé

Visitação para as duas exposições:
Terças, quartas, quintas e sextas - das 12h às 19h
Sábados - das 12 às 17h
Até 04 de março de 2017


Sandra Camillo
Editora Chefe
https://www.facebook.com/sandra.camillo

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