25 de out de 2014

OUTROS SONS, ÁLBUM DE ESTREIA DE ELIETE NEGREIROS, GANHA VERSÃO EM CD



Após 32 anos de seu lançamento em LP, de forma independente pela gravadora Vôo Livre, chega ao

mercado, em CD e digital, um dos mais significativos álbuns da chamada Vanguarda Paulista, “Outros

Sons”, disco de estreia da cantora e compositora paulista Eliete Negreiros.

O álbum, lançado em 1982, recebeu enaltecimento da critica. Eliete conquistou o prêmio APCA

(Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Cantora Revelação do Ano, o disco foi comparado ao

“Tropicália ou Panis et Circensis” (1968) – álbum-manifesto do movimento tropicalista – e rendeu à cantora

o título de musa da Vanguarda Paulista, numa comparação com a musa da bossa nova, Nara Leão.

Com produção e direção musical de Arrigo Barnabé, “Outros Sons” traz repertório que mescla a tradição à

vanguarda, com composições do produtor e outros autores de sua geração e clássicos da canção brasileira

e norte-americana: a faixa que dá nome ao disco é de Arrigo Barnabé com letra de Carlos Rennó. Itamar

Assumpção entrou com “Fico Louco”. “Pipoca Moderna”, parceria de Sebastião Biano e Caetano Veloso,

versões para os clássicos “Begin the beguine” (Cole Porter, versão de Haroldo Barbosa) e “Sol da meia-noite

(Midnight Sun)” (J. Mercer, S. Burke, L. Hampton, versão de Aloysio de Oliveira) e uma composição própria,

“Espanto”, completam o disco, que conta ainda com vinhetas dissonantes, ruídos, referências literárias e

influências da música de vanguarda.

Kuarup

Criada em 1977, no Rio de Janeiro, por muitos anos a Kuarup foi considerada uma das principais gravadoras

independentes do Brasil e acumulou diversas premiações, incluindo dois Grammy Awards. Especializada

em música brasileira de alta qualidade - o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo

no país - a gravadora Kuarup encerrou suas atividades em janeiro de 2009, após mais de trinta anos de

atuação. Em 2011, voltou ao mercado sob nova direção, quando iniciou o processo de revitalização dos

cerca de 200 títulos do catálogo, num trabalho de recuperação da memória musical nacional, além de abrir

suas portas para novos artistas e lançar discos inéditos em CD de outros selos.

Eliete Negreiros

Além de cantora, Eliete tem mestrado e doutorado em Filosofia pela USP, sobre a obra de Paulinho

da Viola. O mestrado virou livro - “Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos”, (Ateliê

editorial/2011) e o doutorado, concluído em 2012 sob orientação da filósofa Olgária Matos, originou o

livro "Paulinho da Viola e o elogio do amor", que em breve será m lançado pela Ateliê Editorial .

Eliete Negreiros tem ainda artigos publicados no blog da Revista Piauí, onde escreveu semanalmente, de

agosto de 2012 a março de 2013, na seção “Questões Musicais”, e na revista Caros Amigos, em uma página

mensal, de novembro de 2012 até julho de 2014. Escreveu também o livreto do CD Billie Holiday da coleção

Folha Grandes Vozes.

Discografia:

Discografia:

CD 16 canções de tamanha ingenuidade – Gravadora Eldorado – 1996

CD Canção Brasileira – a nossa bela alma – Gravadora Cameratti – 1992

LP Eliete Negreiros – Gravadora Continental – 1989

LP Ângulos- Tudo está dito - Gravadora Copacabana – 1986

LP Outros Sons – Gravadora Vôo Livre – 1982

Prêmios e indicações:

Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) – Melhor Cantora de Música Popular Brasileira –

1993

Indicação para o Prêmio Sharp de Música – Melhor Cantora de Música Popular Brasileira – 1993

Prêmio Concorrência Fiat – 1991

Indicação para o Troféu Villa-Lobos – ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco) – Melhor Cantora

Popular Brasileira – 1987

Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) – Cantora Revelação – 1983


Eliete Negreiros por Arrigo Barnabé, José Miguel Wisnik e Milton Hatoum

Em nosso período de formação, nos anos 1970, bastante influenciados pelo pensamento de Augusto de Campos (que

propunha um diálogo mais franco entre música erudita contemporânea e a música popular), ouvir de Orlando Silva

a Gilberto Mendes, de Lupiscinio Rodrigues a Stockhausen, passando por Janis Joplin e João Hendrix Gilberto Jobim

Veloso Buarque Bartok da Viola Nascimento Webern Lobos, era uma coisa comum.

Essa conversa, essa aproximação com a tradição, não havia sido contemplada por mim, no LP “Clara Crocodilo”. E eu

sempre pensava nisso. Quando propus à Eliete produzir e dirigir um disco para ela, tinha isso em mente. Ela sempre foi

uma grande interlocutora nessas questões, tinha clareza e compreensão suficientes para embarcar nessa onda.

A música "Outros sons" já era velha conhecida da Eliete, de quando ensaiávamos em uma garagem, na rua dos

Pinheiros, ainda com outra letra: "Raro Riso". Eu não estava satisfeito com essa letra, que havia escrito em 1974, e

pedi ao Carlos Rennó que colocasse outra letra. Augusto de Campos sempre falava que o “Pierrot Lunaire” poderia ser

canto-falado por alguém de música popular (lembro dele mostrando a versão da cantora Cleo Laine). Daí a citação de

cinzas negras borboletas....

A princípio o disco ia se chamar “Pipoca Moderna”. Havia tempos eu pensava em um arranjo para essa música, que

sempre foi motivo de muita conversa com a Eliete. As vinhetas com o som de pipoca sendo estourada e, depois,

mastigada pela Eliete, foram motivo de muita diversão para nós e o técnico de som Silvio, cuja cumplicidade no projeto

não poderia deixar de ser apontada.

Arrigo Barnabé, compositor, produtor e cantor

Ouvido trinta e um anos depois, este disco de Eliete Negreiros soa como uma porrada comovente, como a amostra

sutil e poderosa da atmosfera musical que respirávamos na zona oeste de São Paulo na altura de 1982. Ele é movido

pela ambição de continuar expandindo o campo aberto pela bossa nova e pela tropicália, com livre trânsito pelos

gêneros musicais, densa instrumentação, timbragem, texturas ruidísticas e a exploração sonora e polissêmica das

possibilidades textuais. As sílabas de “Pipoca Moderna” pipocam foneticamente, no arranjo de Arrigo, desconstruindo

e reconstruindo a canção, até estourar o saco vazio e cheio de ar, na implícita frase final da música – “Tudo Mudou” –

que se torna também a faixa final do disco.

O mais bonito é que esse explosivo pacote experimental, pleno de delicadezas e descobertas, é regido pela elegância,

pelo tom low profile, pela sensibilidade e pela inteligência vocal de Eliete, que fazem dela nada menos do que a Nara

Leão da vanguarda paulista. A canção brasileira e a norte-americana, a música caipira recriada por Passoca e um

Itamar emergindo, as ressonâncias passadas e contemporâneas, tudo se cruzava ali. Relançado agora em CD, o disco

ressurge com frescor, e com a beleza incorruptível das coisas íntegras.

Longa vida a Outros sons!

Paris, 3 de novembro de 1982

Imagino o que deve ter significado pra ti, cantora, escutar o teu próprio disco. Certas pessoas não estimam a dimensão

do trabalho, do longo trajeto que a gente percorre até formalizar, concretizar uma ideia. E no teu disco a concretização

vai mais longe, sai do âmbito sonoro e se desdobra em outras ideias e numa nova concepção formal: a retomada

estética dos nossos Modernistas, que o Arrigo assimilou de um modo brilhante, singular, talvez único. Creio que

os movimentos estéticos passam por um percurso pendular, o de inovar reinventando o passado, de experimentar

com uma mão e classicizar com a outra. Toda essa mistura de sons e ritmos, de brasilidades e estrangeirismos, de

vozes que imitam metais e instrumentos que vocalizam, tudo isso se sedimenta na ideia de que nossa expressão é

carnavalesca, plural, popular e erudita ao mesmo tempo. Contemplar a vida e refletir sobre a humanidade à beira

de uma praia ensolarada, ou dentro da selva sem fim. Ou escrever dançando, pensar entre gargalhadas, parodiar a

vida, que é imitá-la com olhar esquivo, irônico, às vezes de ressaca, como o de Capitu. Todos esses escritores latino-
americanos entendiam isso, mas antes de todos eles, Oswald e Mário, e antes dos dois Machado: pai de todos.”

José Miguel Wisnik, compositor, cantor e professor de Literatura

Milton Hatoum, escritor e tradutor

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