4 de ago de 2014

Livro revela fatos polêmicos sobre a imigração europeia pelo sistema de parceria


Nova obra do pesquisador José Eduardo Heflinger Jr aborda rebeliões que 
ajudaram a desacreditar o Brasil como país dos sonhos dos emigrantes

São Paulo, 30 de julho de 2014 - A colonização pelo sistema de parceria adotada no Brasil - em particular, na então Província de São Paulo -, em meados do século XIX, foi elogiada como uma excelente alternativa para a substituição do braço escravo pelo livre. E o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro teve um papel pioneiro nesse sentido, ao empregar imigrantes europeus na lavoura do café, por meio do sistema de parceria. A ideia era boa: aproveitar a situação precária de alguns países da Europa, buscando naquele continente a mão de obra necessária para que os fazendeiros pudessem dar conta do aumento da produção, principalmente após a proibição do tráfico de escravos africanos para o Brasil.

O que, então, provocou a decadência do sistema de parceria, que começou com a Revolta dos Parceiros, ocorrida em 1856, na Fazenda Ibicaba (propriedade do senador Vergueiro)? “A insensibilidade dos fazendeiros, o engajamento de colonos de péssima qualidade, a ausência de uma legislação eficiente, de uma justiça imparcial e, principalmente, porque o governo não teve força para adotar uma solução que colocasse um fim ao sofrimento de todos os envolvidos”, afirma o pesquisador José Eduardo Heflinger Júnior, que há 30 anos estuda o assunto vasculhando arquivos brasileiros e europeus. “Todos esses fatores contribuíram para desacreditar o Brasil, durante certo período, como país dos sonhos dos emigrantes”, acrescenta.

O extenso e valioso material coletado por Heflinger em arquivos de diversos países é a base de seu novo livro, intitulado O Sistema de Parceria e a Imigração Europeia, que contou com incentivos da Lei Rouanet (Lei 8313/91), do Ministério da Cultura, e o apoio de consulados, embaixadas, universidades, museus, bibliotecas e outras instituições internacionais ligadas à cultura e à pesquisa histórica. Bilingue (português/inglês), a obra traz documentos inéditos, traduzidos do alemão gótico, francês e português arcaico, e 200 ilustrações raríssimas - como os belos desenhos da Baía de Paranaguá feitos por William Michaud, suíço natural de Vevey que se estabeleceu na Colônia de Superagüi, naquela região, e um ensaio fotográfico da Fazenda Ibicaba, localizada em Limeira, que mostra as dependências preservadas da propriedade que abrigou a primeira experiência imigratória pelo sistema de parceria.

A imigração de suíços por esse sistema ocupa uma parte expressiva do novo livro de José Eduardo Heflinger Júnior. A Colônia de Superagüi, por exemplo, criada por Charles Perret Gentil após seu desligamento do cargo de cônsul geral da Suíça no Brasil, tem sua história contada em um dos capítulos. Além disso, entre os documentos inéditos do livro, destacam-se as cartas de Thomas Davatz, mestre-escola da Ibicaba e líder da revolta dos colonos que viviam naquela fazenda, para o comerciante Gustav Lutz e o então cônsul geral da Suíça, Henrich David, no período compreendido entre o final de 1855 e dezembro de 1856.

Esse dossiê de raro valor, encontrado no acervo do Swiss Federal Archives de Berna, revela fatos curiosos e polêmicos. “Muitos autores elegeram Thomas Davatz como o grande herói helvético do século retrasado, cantando em verso e prosa a sua coragem, determinação e despojamento em sua empreitada em defesa de seus patrícios contra a Vergueiro & Companhia”, afirma Heflinger no livro, com base nesses documentos. “Creio que esses pesquisadores não tinham conhecimento de que o mestre-escola desejava se transformar em agente de emigração/imigração, assim como em administrador de uma colônia que sonhava constituir na região sul do Brasil Imperial. Apesar de ter assinado contrato com a Casa Vergueiro, empreendia esforços para desacreditar a Colônia da Fazenda Ibicaba junto ao Consulado Geral da Suíça, assim como diante das administrações das onze comunidades helvéticas que o incumbiram de escrever um relatório sobre as condições enfrentadas pelos imigrantes europeus contratados pelo Sistema de Parceria para trabalhar nas fazendas de café da Província de São Paulo”, enfatiza o autor.

Ao revelar o conteúdo de documentos inéditos, o livro O Sistema de Parceria e a Imigração Europeia traz uma importante contribuição à reconstituição da memória histórica do Brasil e de países como Suíça, Alemanha e Portugal, que protagonizaram a emigração ao país pelo sistema de parceria.



Serviço:
O Sistema de Parceria e a Imigração Europeia
Autor: José Eduardo Heflinger Júnior
200 ilustrações - 200 páginas - bilingue (português/inglês)
Editora: Unigráfica
Comercialização: livrarias Saraiva e saraiva.com
Preço: R$ 50,00

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