26 de mai de 2014

Brava Companhia estreia JC no Sacolão das Artes no Parque Santo Antônio









Usando a metalinguagem, JC  se utiliza do espetáculo para falar do trabalho artístico. Fazendo um paralelo com a história e imagem de Jesus Cristo, narra a trajetória de um coletivo artístico atuante na periferia de uma metrópole.
Trata-se de uma peça que revela seu processo aos olhos do público. O cenário, a iluminação, os figurinos são simples e articulados numa relação de apresentação frontal, sem quarta parede, com portas e janelas escancaradas. As músicas foram criadas para a peça e são tocadas ao vivo.

Faz tempo que a atuação de grupos da cena teatral se expandiu do Centro de São Paulo para a periferia da cidade - muitos deles foram criados lá. Parte dessas companhias abriu sua própria sede, onde, além de encenar seus espetáculos, desenvolvem projeto de pesquisa e, assim, participam ativamente da rotina da população daquela comunidade. É o caso da Brava Companhia, que, desde 2007, ocupa o Sacolão das Artes, no Parque Santo Antônio, depois de reforma para adequação de seu espaço cênico. A Brava Companhia estreia novo espetáculo e depois apresenta mostra de seu repertório.

Em um paralelo com sua própria história, a Brava Companhia parte da realidade para ficcionar seu novo espetáculo. JC estreia dia 30 de maio, sexta-feira, às 20 horas, no Sacolão das Artes. Com direção deFábio Resende e dramaturgia de Ademir de Almeida, a peça mostra a via crucis de um coletivo de trabalhadores da arte, conhecido como Os Doze Apóstolos atuante na periferia de uma metrópole.

A história desenrola-se em meio a um cenário controlado pela indústria da cultura, onde um grupo luta ao mesmo tempo para sobreviver e manter sua produção crítica e radical. A ideia é colocar em pauta uma discussão sobre o trabalho, a religião e a indústria cultural.   

Por meio de uma encenação e atuação sustentada pela diversão e humor crítico, a montagem traz à tona a discussão sobre o trabalho artístico, assunto inserido nas relações de produção da sociedade capitalista e da indústria cultura. Também são enfocados  aspectos ligados ao mundo do trabalho e à mercantilização das relações de produção da vida.

JC é parte de uma intensa pesquisa da Brava Cia chamada Teatro da Contra Imagem. Trata-se de um teatro feito na era das imagens, na sociedade do espetáculo, em que as imagens alienam e conferem às pessoas a condição de meros consumidores. O trabalho aborda três temas: o trabalho artístico, a indústria cultural e a religião. “Estes temas são tratados e colocados numa peça em que se faz um paralelo com nosso próprio grupo, com a própria Brava”, afirma Fábio Resende.

Optamos por fazer um paralelo com a história e com a imagem de Jesus Cristo, retratado pela figura de JC, um trabalhador artista que vê e participa do processo de cooptação e dissolução do grupo do qual faz parte num cenário controlado por Deus Mercado e seus agentes culturais. Neste grande circo neoliberal, JC é conduzido ao sucesso. Seu sucesso é também seu calvário”, comenta o autor Ademir de Almeida.



A encenação
A montagem foi concebida para parecer um ensaio. Ou seja, conferir a toda a peça o ato de ensaiar, do não exatamente pronto, acabado. “A ideia de ensaio para nós está também ligado ao fato de colocarmos uma posição frente aos assuntos. Ou seja ensaiar sobre eles, como fazem os teóricos. Claro que isso é uma proposta de encenação, portanto o que é para parecer um grupo ensaiando, foi ensaiado”, explica o diretor.

Em cena, ficam aparentes até as ferramentas usadas pelos técnicos de som, luz e contrarregragem. Os figurinos, apesar de passarem por um tratamento especial, dão a ideia de roupas usadas. A iluminação segue também essa proposta de ensaio, feita com um número pequeno de refletores, alguns sendo afinados no momento presente da execução das cenas.

O cenário, a iluminação, os figurinos são simples e articulados numa relação de apresentação frontal ao público, sem quarta parede, com portas e janelas escancaradas. As músicas foram criadas para a peça e são tocadas ao vivo e mecanicamente.

“Todos os signos da peça são articulados para primeiro conferir ao espectador a possibilidade de um divertimento crítico sobre os assuntos levantados e caracterizar todo o trabalho como um ensaio de grupo de teatro, utilizando para isso o revelação constante do como fazer”, explica Fábio.

“O que tentamos revelar na peça é o processo existente na realidade, na vida concreta, que fazem com que a arte e a cultura sejam cada vez mais controladas e subordinadas à ordem vigente, passíveis de serem enlatadas e vendidas ao consumidor. Para sobreviver é necessário a qualquer trabalhador, inserido nos modos de produção capitalista, vender seu único bem, ou seja, seu corpo, sua força de trabalho. Para este coletivo artístico apontado na peça a condição não é diferente”, explica Fábio Resende.

A narrativa central da peça é entrecortada por outras cenas, cenas de interrupção, que compõem uma dramaturgia paralela, ampliando as questões levantadas sobre   os temas, para além da especificidade do trabalho artístico. Segundo o autor, “a peça foi concebida para ser um ponto de tensão, ainda que sabidamente pequeno, entre o natural e o assombro, entre o presente e o que ainda está por vir, é um teatro que diverte, que se utiliza do humor, do popular para dialogar, conversar e rir e o riso é, sem dúvida, o melhor ponto de partida para o pensamento. Outro ponto importante da concepção é a construção épica da peça, que privilegia a diversão como ferramenta para o apontamento crítico”,

Sobre a Brava Companhia
A Brava companhia é um coletivo teatral formado por um corpo estável de trabalhadores e trabalhadoras do teatro que em 2014 completou 16 anos de trabalhos ininterruptos na e para a cidade de São Paulo. Ao longo de sua história a Companhia criou 12 espetáculos, sendo 4 deles mantidos em repertório e montados nos últimos 8 anos, são eles: A BravaO ErranteEste Lado Para Cima – Isto Não é Um Espetáculo e Corinthians, Meu Amor – segundo Brava Companhia – uma homenagem ao Teatro Popular União e Olho Vivo. Em 2013, o grupo estreou dois experimentos cênicos, duas peças de Reinaldo Maia, Julio e Aderaldo – Um Dia Na Vida de Dois Sobreviventes” e  A Quadratura do Círculo, ambas previstas para estrear 2014. Estes espetáculos são resultados de uma intensa pesquisa teatral calcado em dois pares fundamentais: ação e reflexão; qualidade estética e pertinência política.

Os espetáculos da Brava companhia circularam por mais de 300 bairros da zona sul da cidade de São Paulo, por festivais e mostras do País e fora dele. Ao longo destes quase 16 anos de história o grupo foi contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo em três edições, 12ª, 15ª e 20ª. Requer contar que, em 2008, ano em que o grupo foi contemplado pela primeira vez, eram 7 seus integrantes e por meio de cursos  e núcleos de pesquisa oferecidos pelo grupo, outras quatro pessoas se incorporaram ao trabalho orgânico da Companhia desde 2008. Hoje o grupo é composto por 11 pessoas que buscam, por meio de uma relação horizontal, testada e tentada todos os dias, desenvolver uma poética comprometida com seu entorno e com a cidade e é por meio deste desenvolvimento poético contínuo que hoje o grupo é formado por integrantes, trabalhadores e trabalhadoras que conhecem o seu ofício, teórico e praticamente e condicionam esta possibilidade do  fazer teatral inserido na sociedade, a um compromisso público com a cidade, compromisso que exige pertencimento, disposição e condições materiais que possam sustentar minimamente a continuidade do trabalho.

Esta continuidade é prospectada a partir de alguns pressupostos, tais como: a escolha por realizar o trabalho na periferia sul da cidade de São Paulo, a relação com a sociedade, função social e crítica do teatro, a construção de conhecimentos críticos, o aprimoramento técnico que tem por finalidade a clarificação de conteúdo, a disposição para a ação e reflexão de um teatro que pretende ser audacioso, crítico e divertido para quem faz e para quem o vê,inquieto no que diz respeito ao indissociável trabalho ligado à forma e conteúdo  e uma poética construída por pessoas que buscam compreender e refletir as tensões da história e suas opções como participantes dela.

O trabalho da Brava companhia é dividido em  ações ligadas à gestão e manutenção de sua sede no Sacolão das Artes; continuidade e aprimoramento do fazer artístico do grupo; disponibilização dos trabalhos para a sociedade, por meio de apresentações, debates, cursos e  publicações ( Caderno de Erros I, II, III)  e encontros com grupos e fazedores de teatro.

O Sacolão das Artes
Desde 2007, o grupo mantém sua sede, Espaço Brava companhia, no Sacolão das Artes, localizado no bairro do Parque Santo Antônio, bairro da periferia sul da cidade de São Paulo, região onde, desde sua fundação, a Companhia mantém ações de trabalho que, além das apresentações de seus espetáculos incluem estudos práticos e teóricos, oficinas, debates, mostras e encontros com grupos teatrais, gestão e manutenção de sua sede no Sacolão das Artes e a edição do Caderno de Erros, publicação do grupo que tem por objetivo a disponibilização pública de processos sobre o fazer teatral.

PRÊMIOS RECEBIDOS
2013 – Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro – Melhor publicação – Caderno de Erros II.
2009 Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro – Melhor Espetáculo apresentado em Rua: “A Brava” da Brava Companhia.
2007 Melhor espetáculo “Perfeição- quando a tempestade nasce das luzes” XIV Festival de Teatro de Florianópolis.
2005, 2006 e 2007 Prêmio Cooperifa - Cooperativa cultural da Periferia Pela ação teatral desenvolvida na Zona Sul da Cidade de São Paulo.

INDICAÇÕES A PRÊMIOS
2012 – Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro -  Melhor Dramaturgia – Fábio Resende; Elenco; Trabalho apresentado em espaço não convencional; Publicação por Caderno de Erros II – Organização e Relato de Processo – Fábio Resende.
2010 – Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro – 2 indicações para o espetáculo O Errante ( Elenco e Ocupação de Espaço Cênico).
2010 – Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro – Melhor espetáculo apresentado em Rua – Este Lado Para Cima.
2008 Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro (4 indicações) Ocupação de Espaço pela ocupação do Sacolão das Artes como sede da Brava Companhia; Dramaturgia; Projeto Sonoro e Melhor espetáculo apresentado em Rua “A Brava” da Brava Companhia.
2008 – Prêmio Shell – Melhor Direção – “A Brava” da Brava Companhia.

Ficha técnica:
Criação e Concepção – Brava Companhia. Atores – Ademir de Almeida, Henrique Alonso, Joel Carozzi, Maxwell Raimundo, Rafaela Carneiro e Sérgio Carozzi. Direção – Fábio Resende. Dramaturgia – Ademir de Almeida. Direção Musical – Juh Vieira E Brava Companhia. Músicas Originais – Juh Vieira E Brava Companhia. Assessoria Musical - Luciano Carvalho. Cenografia e Figurinos – Cris Lima, Márcio Rodrigues e Sérgio Carozzi. Iluminação – Fábio Resende, Henrique Alonso e Márcio Rodrigues.Produção Gráfica – Ademir De Almeida e Joel Carozzi. Reserva – Luciana Gabriel. Produção – Kátia Alves.

JC – Estreia dia 30 de maio, sexta-feira, às 20 horas, no Sacolão das Artes - Av. Cândido José Xavier, 577 – Pq. Santo Antônio – São Paulo – SP. Temporada: 30 de maio à 26 de julho. Sextas 20h e sábados 19h - exceto os primeiros sábados do mês.Telefone: 5511 6561. Ingresso: Grátis. Duração: 95 minutos. Classificação: 14 anos. Capacidade 100 pessoas.

Nenhum comentário: