16 de ago de 2012

Bienal do Livro - Vale a pena?


André Kondo*



Ouvi pessoas dizendo que a Bienal do Livro de São Paulo já não é mais a mesma. Que o número de visitantes cai a cada biênio, que não vale mais a pena ir à Bienal, já que hoje é perfeitamente possível comprar livros pela internet, sem ter que pagar ingresso, enfrentar filas, lutar por uma vaga de estacionamento, etc, etc... Será?

Na sexta-feira, eu estava vivendo este dilema: vou ou não à Bienal? Disse à minha esposa: "Acho que não vou à Bienal, vou esperar você chegar e ficaremos juntos em casa". Ela disse: "Eu sei que você quer ir. Eu tenho que ir ao meu estágio, enquanto isso, você vai à Bienal e depois a gente se reencontra. Que acha?". Minha esposa... minha musa-esposa. Ela consegue me ler por completo. Sabe as minhas entrelinhas. Então ficou assim. Ela pegou a moto, me deixou na Bienal a caminho do estágio... 

E o que fiz sexta à noite na Bienal? Participei do lançamento da antologia em homenagem a Jorge Amado, organizado pelo escritor Valdeck de Almeida de Jesus, e que contém uma crônica minha. Lá conheci várias pessoas que também tinham um texto publicado naquele livro. Alguns vieram até de Salvador para participar do lançamento! E dentre essas pessoas estava a Dona Neva de Oliveira, uma simpática senhora, que na felicidade de seus mais de 80 anos, estava adorando, como uma criança, o lançamento de seu texto na Bienal. Abracei-a e depois corri para o lançamento do livro "Águas de Clausura", obra premiada do meu amigo e escritor Edelson Nagues, que veio de Brasília especialmente para o evento. Foi a primeira vez que o abracei sem ser na forma virtual do "um abraço" depois de um email ou recado de rede social ou da comunidade "Concursos Literários". Bem, ao final da noite, minha esposa me buscou. Ela sorriu pra mim. Por quê? Porque ela tem a mania de ficar feliz quando eu estou feliz. 

No dia seguinte, voltei à Bienal para encontrar mais amigos. Conheci outra amiga virtual, a escritora Amanda Reznor, que está lançando o livro Delenda. Lá estávamos eu, o Edelson, a Amanda e pouco mais de cinco escritores em volta de uma mesa (dentre eles Janaína Rico, Rodolpho Wraider e Luciane Rangel) para o sorteio de livros agitado pela Internet, na qual cerca de 300 pessoas confirmaram participação. Cadê o pessoal? Os trezentos? Pulverizados pela Internet! Sorte do Edelson, que teve mais chance de ser sorteado e de acabar premiado com o livro "Delenda". Abraços. 

Abraços. Onde você consegue um abraço online? Livro para muitos é apenas um objeto. Para outros é pura emoção. Para os primeiros, tudo bem comprar livro só pela Internet. Não faz diferença, é o mesmo que comprar um liquidificador. Mas para os demais, que sabem que um abraço real não se encontra na Internet, vale a pena ir à Bienal

Na Bienal, fui ao Salão de Ideias e pude "sentir" a literatura do grande escritor Milton Hatoum. Pude ouvi-lo, apertar sua mão, rir de seu bom humor, admirar o seu talento ao vivo. Sempre imaginava grandes escritores como algo meio irreal. Por que não dizer, virtual? Mas sabem de uma coisa? Escritores existem! São de carne e osso e alguns como o Milton têm alma também! Até o Ziraldo é real! Eu o vi. E centenas de escritores também, como Edelson, Amanda e eu, que apesar de não sermos tão conhecidos, também temos a felicidade de escrever e existir. Todos sabem que a literatura de Hatoum é primorosa. Agora eu sei que a de Edelson, também. Sorte de quem lê, mas tem mais sorte quem pode compartilhar alguns momentos ao seu lado. Enfim, vou finalizar contando uma coisa muito bacana que aconteceu comigo no dia seguinte, isto é, no Dia dos Pais.

Meu pai sempre havia sido contra essa minha ideia de ser escritor. Claro que entendo agora que o que o preocupava era a questão financeira. Mas, quando fui dar um abraço pelo Dia dos Pais, ele me mostrou uma prateleira que ele tinha feito. Lá estavam vários livros em japonês. Então, ele apontou um cantinho, dizendo assim: "Aqui é a prateleira reservada para os livros de André Kondo". E lá estavam os meus livros publicados, todos que ele havia adquirido nas festas de lançamento...

Preciso dizer mais? Vocês imaginam pais comprando os livros dos filhos pela Internet? Sem aquele ar orgulhoso de "esse é meu filho"? Sem um... abraço? Enfim, a vida pode ser mais fácil pela Internet, mas é fora dela, nas bienais da vida, que ela realmente acontece. 

*André Kondo, 37, é escritor. Autor dos livros Além do Horizonte e dos premiados Amor sem Fronteiras, Contos do Sol Nascente e Cem pequenas poesias do dia-a-dia, escreve no blog www.andrekondo.blogspot.com.

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