2 de mai de 2012

Espetáculo “Terra Santa” ganha montagem inédita no Brasil

Sucesso no mundo todo, peça de Mohamed Kacimi está em cartaz no Teatro Santa Catarina, na avenida Paulista


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Crédito da Foto: Pedro Loes
É possível extrair humor e poesia de uma situação-limite, como a guerra? Esse é o desafio do espetáculo “Terra Santa”, que está em cartaz em São Paulo, no Teatro Santa Catarina, em plena avenida Paulista. Encenado nos palcos de Paris, Berlim, Nova York, Milão e Jerusalém, dentre outras cidades, o espetáculo do dramaturgo franco-argelino Mohamed Kacimi ganha montagem inédita no Brasil pelas mãos do diretor paulistano Rodrigo Feldman. A estreia marca também a reabertura de mais um espaço teatral no coração da capital paulistana, o Teatro Santa Catarina – até então, destinado a eventos.

O texto, escrito originalmente em 2006 pelo premiado autor Mohamed Kacimi, ganha sua primeira montagem em língua portuguesa. Uma montagem com cenário minimalista, com foco na atuação dos atores e na força poética do texto. A história se passa em uma cidade sitiada, onde a família de Aliá, seu marido Yad e seu filho Amin e toda a população estão cercados por um exército. Qualquer descuido é interpretado como um ato hostil e eles massacram a população de forma brutal.

A paisagem é branca, empoeirada e devastada, onde soldados atiram em gatos vira-latas. Carmen desaparece em um posto de controle. Sua filha, Imen, enfrenta as perseguições do soldado Ian. Na casa ao lado, Aliá, a parteira, cuida do gato Jesus, enquanto Yad, seu marido, se conforta em tragos de narguilé, o sabor de pistaches e a embriaguez do arak. Tantas escapatórias ao som de fuzis e devastadores incêndios. Um dia, Amin, filho de Aliá e Yad, mata um soldado. O ato transforma o estudante num mártir, capaz de matar e morrer em nome de Deus. 

O texto mostra os dois lados da guerra e o senso de humanidade que resta quando morrer torna-se rotina. Cada gesto das personagens é um ato de resistência: comer, beber, viver. Falar do passado e do presente, jamais do futuro.  O humor e a vitalidade se revelam como as únicas maneiras de atravessar as tragédias com dignidade.  A tragicomédia, bem ao estilo Nelson Rodrigues, tem como tema a guerra universal e suas devastações. O texto não trata de uma guerra específica, mas sim a guerra do cotidiano das pessoas e de suas desordens internas, como seus ódios étnicos, religiosos, cegueiras, medos, dentre outros dilemas existenciais. Terra considerada santa, mas terra repleta de conflitos. “Esse tema, infelizmente tão atual, é pouco explorado em nosso teatro, então, não pensei duas vezes em adaptá-lo à nossa língua. Em ‘Terra Santa’, Kacimi não designa nenhum local ou época específica. Permanece atemporal e universal, o que permitiu sua montagem de Berlim a Jerusalém, de Milão a Nova York. Esse resgate do humano é o grande diferencial do texto. A guerra é do ser humano, sem julgar culpados e inocentes. Para entendermos uma guerra milenar como esta, muitas vezes distante e insensata para nós, não é preciso ir muito longe. Se olharmos, por exemplo, o conflito ocorrido há pouco tempo na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, em São Paulo, veremos que a Terra Santa é aqui, ‘bem debaixo dos nossos pés’, como diz o personagem Yad, quando seu filho Amin diz que ele irá para o inferno. A questão aqui não é revelar o agressor ou agredido, mas o quanto a agressã o já está integrada ao modo de vida do homem”, explica Rodrigo Feldman, diretor do espetáculo. O diretor teve seu primeiro contato com a obra, em 2007, durante seus estudos de pós-graduação em Estudos Teatrais na Universidade Sorbonne, em Paris. Como afirma o próprio Kacimi em seu prólogo: “Não se trata da banalização do mal, mas de sua rotina”.

As tragédias relatadas na peça mostram também o lado cômico da vida. Como explicita o personagem Yad (ator Roberto Birindelli), “é preciso buscar a felicidade mesmo em meio à tragédia”. Roberto divide o palco com os atores Erika Zanão, Imara Reis e Bruno Autran. “Existem muitos momentos cômicos no texto, mas as tragédias que predominam vão deixar o público com o riso preso na garganta”, afirma Rodrigo. Peça para rir, se emocionar e refletir.


Sobre Rodrigo Feldman:
Ator, produtor, roteirista e diretor paulistano, Rodrigo tem 30 anos e começou sua carreira aos 15 anos, atuando e dirigindo no Teatro Rio Branco com direção de Dan Stulbach. Profissionalizou-se anos depois como ator. Em 2004, formou-se diretor e produtor executivo pela FAAP. Em 2005, mudou-se para França onde fez pós-graduação em Estudos Teatrais na Sorbonne. Lá, atuou e dirigiu diversos espetáculos teatrais, curtas-metragens e séries de televisão. Dentre elas, destacam-se suas participações como ator na primeira adaptação da obra de Marcel Proust para o teatro, em “A Procura do Tempo Perdido”, com direção de Jean-Paul Zennacker; na série de televisão “Comme des Champions”; na peça “L’Univers Est Petit” (“O Universo & Eacute; Pequeno”),  da Cia. Vole Escargot Vole; em 2007, atuou e dirigiu o espetáculo “Terra Santa”, apresentado no Festival de Teatro da Sorbonne. De volta ao Brasil, atuou na peça “A Proposta”, uma adaptação da obra de Anton Tchekov com temporada no Rio de Janeiro, em 2009, e foi aclamado pelo público e crítica. Em seguida, atuou na comédia "Proposta Indecente", com dramaturgia e direção de Renato Scarpin.  Em 2010, fundou a produtora de cinema Zero Grau Filmes, sendo roteirista e ator do curta-metragem “Café Turco”, vencedor de melhor curta-metragem no Festival de Paulínia, em 2011. Atualmente, é diretor e consultor audiovisual da ONG Make a Wish Brasil.



Sobre Mohamed Kacimi:
Mohamed Kacimi é um dos mais interessantes escritores da atualidade. Descobre a dramaturgia teatral com a diretora Ariane Mnouchkine.  Nascido em 1955 na Argélia, é diretor, jornalista, escritor e romancista. Desde 1982, vive em Paris, na França. Dentre seus romances, destacam-se “Le Mouchoir“ (“O Lenço”) e “Le Jour Dernier” (“O Último Dia”). Em 2004, vence as Missões Stendhal. Em 2005, recebe o prêmio da Francofonia da SACD (Sociedade dos Autores e Compositores Dramáticos) e obtém a Bolsa Ano Sabático do CNL (Centro Nacional do Livro), na França. Recebeu prêmios importantes como Francofonia da SACD (Sociedade dos Autores e Compositores Dramáticos) e obtém a Bolsa Ano Sabático do CNL (Centro Nacional do Livro) na França. Co mo jornalista, colaborou com o jornal Actuel, Le Monde e France Culture. Educador, organizou diversas oficinas de escrita na França e escreveu uma enciclopédia do mundo árabe. Autor empenhado na promoção da escrita contemporânea, Mohammed Kacimi integra a associação “Ecritures Vagabondes”, que organiza residências e encontros de escritores internacionais.
Ficha Técnica:
Texto: Mohamed Kacimi
Tradução e direção: Rodrigo Feldman
Direção de Elenco: Imara Reis
Elenco:  Erika Zanão (Imen), Imara Reis (Aliá), Bruno Autran (Ian e Amin) e Roberto Birindelli (Yad)
Cenário e figurino: Marina Previato
Assistente de cenário e figurino: Maira Machado
Produção de Arte: Caco Ciocler
Trilha Sonora: Aline Meyer
Iluminação: Rafael Buosi
Assistente de iluminação: Beto Schultz
Direção de Produção: Cássio L. Reis
Realização: Phoenix Produções

 
Serviço:
Terra Santa, de Mohamed Kacimi. Direção de Rodrigo Feldman.
Temporada: até 03/06, sextas 21h30, sábados, 21h e domingos, às 19h30
Local: Teatro Santa Catarina – Avenida Paulista, 200 - Paraíso
Ingressos: R$ 30, às sextas, e R$ 40, aos sábados e domingos  
Censura: 14 anos
Capacidade: 264 lugares (incluindo poltronas para pessoas com necessidades especiais)
Duração: 60 minutos
Gênero: Tragicomédia
Informações: 113016-4296

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Pauta
Carla Manga

Colaborador de pautas
Camila Dias

Editor Chefe
Sandra Camillo

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